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Síndrome de Tourette


Quando o corpo fala mais rápido que a vontade

A Síndrome de Tourette (ST), também chamada de Síndrome de Gilles de la Tourette, é um transtorno neuro comportamental caracterizado pela presença de múltiplos tiques motores e pelo menos um vocal, com início na infância e curso flutuante.


Os tiques são movimentos ou sons súbitos, rápidos, recorrentes e sem propósito aparente, como piscar os olhos, encolher os ombros, fungar ou emitir sons guturais. Embora involuntários, muitos pacientes conseguem suprimi-los temporariamente, geralmente à custa de desconforto interno, seguido de sensação de alívio após o tique o que diferencia o fenômeno de outros movimentos involuntários, como mioclonias ou coreias.

Exemplos de Tiques Motores

Tiques Simples (movimentos rápidos e isolados)

  • Piscar de olhos repetidamente
  • Fazer caretas (movimento facial breve, franzir a testa, enrugar o nariz)
  • Encolher os ombros
  • Sacudir a cabeça ou o pescoço
  • Movimentar os dedos ou as mãos (estalar, bater)
  • Contrair o abdome
  • Esticar o pescoço ou girá-lo de forma súbita
  • Apertar os olhos ou cerrar os punhos
  • Fazer pequenos saltos ou “trancos” de tronco
  • Estalar articulações (sem componente doloroso real)

Tiques Motores Complexos (sequências coordenadas ou gestos com propósito aparente)

  • Bater no próprio corpo (mãos, rosto, coxas)
  • Tocar repetidamente em objetos ou pessoas
  • Caminhar em padrões estereotipados (ex.: dar dois passos para trás antes de avançar)
  • Realizar gestos obscenos (copropraxia)
  • Fazer gestos simbólicos repetidos (como sinal da cruz, bater palmas, arrumar cabelo de
  • modo ritualizado)
  • Saltar, rodopiar ou agachar de forma súbita
  • Simular ações cotidianas de modo repetitivo (como pentear o cabelo ou ajeitar a
  • roupa)
  • “Imitar” gestos de outras pessoas (ecopraxia)
  • Exemplos de Tiques Vocais ou Fônicos

Tiques Vocais Simples

  • Grunhidos, fungadas, tossidas
  • Assobios curtos ou sons de garganta
  • Cliques com a língua
  • Inspirar ou expirar de forma audível
  • Estalar os lábios
  • Sons de animal (latidos, miados)

Tiques Vocais Complexos

  • Repetir palavras alheias (ecolalia)
  • Repetir palavras próprias (palilalia)
  • Emitir palavras aleatórias ou frases desconexas
  • Uso involuntário de palavrões ou expressões obscenas (coprolalia, presente em cerca
  • de 10–15% dos casos, e não em 40% como se pensava antigamente)
  • Entoar frases ou melodias de forma estereotipada (“eco musical”)
  • Alterar o tom ou o ritmo da fala (fala entrecortada ou robotizada)
  • Falar palavras obscenas (coprolalia)
  • Tiques Mistos ou Incomuns (“estranhos” na prática clínica)

São descritos em menor frequência, mas reconhecidos em estudos clínicos e polissonográficos:

  • “Cheirar” objetos repetidamente (mesmo sem odor presente) Dar pequenos pulos repetidos enquanto caminha
  • Encostar o corpo em superfícies (paredes, móveis) de modo ritualizado Puxar ou morder roupas e mangas
  • Fazer sons de beijo ou estalar a língua em sequência rítmica
  • Emitir sons específicos como nomes de pessoas, sílabas ou slogans de TV Imitar sons do ambiente, como sirenes, telefones, campainhas (fenômeno de eco fenômeno)
  • Piscar e simultaneamente virar a cabeça combinação de tiques motores complexos
  • Fazer caretas simétricas ou movimentos alternados de lábios e mandíbula “Saltar” palavras durante a leitura como se houvesse um impulso de interromper a fala
  • “Estalar” o pescoço ou o maxilar de modo repetitivo e forçado, às vezes causando dor “Engolir ar” ou emitir ruído inspiratório alto (gasping tic)
  • Contrair abdome e diafragma produzindo movimentos respiratórios curtos e rítmicos (tiques diafragmáticos)
  • Emitir gemidos ou risadinhas curtas involuntárias “Bater” com o pé no chão ritmicamente como se marcasse um compasso
  • Movimentos pélvicos repetidos (com conotação sexual involuntária, frequentemente causa de constrangimento em adolescentes)

Observações Clínicas Importantes

  • Os tiques podem mudar de forma ao longo do tempo, substituindo-se reciprocamente (“migração de tiques”).
  • A maioria dos tiques desaparece durante o sono, mas alguns persistem em sono REM leve.
  • Tiques nunca são puramente voluntários, embora muitos pacientes descrevam sensação de “necessidade de fazer”.
  • Tiques dolorosos (como torções cervicais) merecem avaliação específica, podendo levar a lesões musculares ou cervicais.
  • Alguns tiques “estranhos” são mal interpretados como sintomas psiquiátricos ou comportamentais, o que reforça a importância do diagnóstico correto.

Nem todo tique é Tourette!

É importante destacar que nem todo tique se enquadra em Síndrome de Tourette.
O DSM-5-TR e a CID-11 reconhecem três principais categorias de transtornos de tique:

Transtorno de Tique Transitório (ou Provisório):

  1. Transtorno de Tique Transitório (ou Provisório):
  • Presença de tiques motores e/ou vocais simples,
  • Duração inferior a 12 meses,
  • Com início antes dos 18 anos.
  • Ocorre em até 20% das crianças em idade escolar, geralmente em resposta a estresse, fadiga, ansiedade, uso de estimulantes ou infecção viral.
  • A maioria regride espontaneamente, sem necessidade de tratamento medicamentoso.

2. Transtorno de Tique Motor ou Vocal Persistente (Crônico):

  • Apenas tiques motores ou apenas vocais,
  • Persistentes por mais de 12 meses,
  • Sem preencher critérios para ST.

3. Síndrome de Tourette:

  • Dois ou mais tiques motores e pelo menos um vocal,
  • Início antes dos 18 anos,
  • Persistência por mais de 1 ano,
  • E ausência de outra causa médica ou substância responsável

Outras causas de tiques ou movimentos semelhantes incluem:

  • Efeitos de medicamentos (ex.: estimulantes, neurolépticos, anticonvulsivantes, lítio);
  • Infecções estreptocócicas com mecanismos autoimunes (PANDAS);
  • Distúrbios metabólicos ou tóxicos;
  • Epilepsias mioclônicas ou distonias paroxísticas;
  • E, mais raramente, distúrbios conversivos ou funcionais.

Assim, o diagnóstico diferencial deve sempre considerar o contexto clínico, o curso temporal e o tipo de movimento, evitando rotular precocemente um quadro benigno e autolimitado com Tourette.

Aspectos genéticos e neurobiológicos

A ST tem etiologia multifatorial, com forte base genética e interação neuroimune em subgrupos de pacientes.

Estudos mostram alta concordância entre gêmeos monozigóticos (≈86%), e vários genes candidatos foram identificados, incluindo SLITRK1, HDC, e regiões cromossômicas 4q, 8p, 16q e 19p. A disfunção principal ocorre nos circuitos córtico-estriado-talâmico-corticais, com hiperatividade dopaminérgica e alterações nos gânglios da base (núcleo caudado e putâmen).


Estudos de neuroimagem (PET, SPECT, RM volumétrica) mostram redução da substância cinzenta frontal, assimetria estriatal e aumento da liberação de dopamina induzida por anfetamina. Também existem evidências de autoimunidade em parte dos casos, principalmente na associação entre tiques e sintomas obsessivo compulsivo após infecção estreptocócica (PANDAS).

Epidemiologia e curso clínico


A ST afeta aproximadamente 0,3 a 1% das crianças, com predomínio em meninos (3–4:1). O início é mais comum entre 4 e 7 anos, com pico de intensidade entre 8 e 12 anos e tendência à redução ou remissão completa em dois terços dos casos na vida adulta. Os tiques flutuam em frequência e intensidade, piorando com estresse, ansiedade, fadiga ou privação de sono, e frequentemente diminuem durante o sono.

Tiques cervicais vigorosos podem causar lesões musculoesqueléticas ou vasculares, justificando abordagens específicas, como toxina botulínica.

Comorbidades e impacto funcional


As comorbidades psiquiátricas são extremamente comuns e muitas vezes mais incapacitantes
do que os tiques em si:

  • TDAH (até 60%)
  • TOC (30–40%)
  • Transtorno desafiador de oposição e de conduta (≈15%)
  • Transtornos de aprendizagem e ansiedade

Essas condições podem intensificar a impulsividade, a dificuldade de concentração e a baixa
autoestima, interferindo diretamente na qualidade de vida e nas relações sociais.

Diagnóstico clínico


O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na observação dos tiques ao longo do tempo e no histórico familiar e comportamental. Exames complementares são indicados apenas quando há sinais atípicos, regressão neurológica, início tardio ou suspeita de causa secundária.

Quando tratar?


Nem todos os pacientes com tiques necessitam de tratamento.


A decisão terapêutica deve considerar três fatores principais:

  1. Impacto funcional (interferência em atividades escolares, sociais ou familiares);
  2. Desconforto físico ou dor (tiques cervicais intensos, automutilações, exaustão);
  3. Sofrimento emocional ou constrangimento social significativo.

Conforme diretrizes da American Academy of Neurology (2019) e da ESSTS (2021), o tratamento é indicado apenas se houver prejuízo relevante. Em casos leves ou transitórios, recomenda-se educação da família e da escola, suporte psicológico e redução do estresse ambiental o que já é suficiente para melhora espontânea em muitas crianças.

Tratamento: abordagem multimodal

  1. Terapia comportamental

A CBIT (Comprehensive Behavioral Intervention for Tics = terapia comportamental baseada em
exposição com prevenção de resposta)) é considerada o tratamento de primeira linha.
Ela integra:

  • Treinamento de reversão de hábitos (HRT),
  • Exposição com prevenção de resposta (ERP),
  • Psicoeducação e manejo de ansiedade.

Estudos controlados demonstram redução de até 38% na gravidade dos tiques (escala YGTSS),
com melhora sustentada e sem efeitos colaterais farmacológicos.

  1. Terapia farmacológica

Indicada em casos moderados a graves:

  • Agonistas α2-adrenérgicos (clonidina, guanfacina) boa resposta em quadros leves, especialmente com TDAH associado.
  • Antipsicóticos atípicos (risperidona, aripiprazol) maior evidência de eficácia e melhor tolerabilidade.
  • Antipsicóticos típicos (haloperidol, pimozida) uso reservado para casos refratários.
  • Toxina botulínica tipo A útil para tiques focais dolorosos.
  • Estimulação cerebral profunda indicada apenas em adultos com tiques
  • incapacitantes e refratários.

Importante: estimulantes como metilfenidato podem ser utilizados com segurança em
pacientes com TDAH e ST, sem piora dos tiques, conforme estudos controlados.

Prognóstico e orientação familiar


A ST não compromete a inteligência nem a capacidade de aprendizado. O prognóstico é, na maioria das vezes, favorável, especialmente quando há apoio familiar e escolar.

A psicoeducação é componente essencial do manejo: compreender o caráter involuntário dos tiques reduz o estigma, evita punições e melhora o autoconceito da criança.

Conclusão


A Síndrome de Tourette é um distúrbio neurobiológico complexo, porém tratável. Com informação, manejo ambiental e intervenções comportamentais bem estruturadas, a maioria dos pacientes alcança excelente controle e qualidade de vida. Reconhecer que tiques transitórios são comuns e geralmente benignos é fundamental para evitar diagnósticos e tratamentos desnecessários.

Referências

  1. Singer HS. Tics and Tourette Syndrome. Handbook of Clinical Neurology, 2019; 165: 123–142.
  2. Pringsheim T, Davenport WJ, Lang AE. Tics. Current Opinion in Neurology, 2003; 16(4): 523–527.
  3. Kossoff EH, Singer HS. Tourette Syndrome: Clinical Characteristics and Current Management Strategies. Paediatric Drugs, 2001; 3(5): 355–363.
  4. Leckman JF, et al. Phenomenology of tics and natural history of tic disorders. Adv Neurol, 2001; 85: 1–14.
  5. Verdellen C, et al. European clinical guidelines for Tourette syndrome and other tic disorders: Part III – Behavioral and psychosocial interventions. Eur Child Adolesc Psychiatry, 2021; 30: 417–441.
  6. Murphy TK, et al. Practice guideline: The treatment of tics in people with Tourette syndrome and chronic tic disorders. Neurology, 2019; 92(19): 896–906.
  7. American Psychiatric Association. DSM-5-TR: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5th ed., 2022.
  8. World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics (6A05–6A07: Tic disorders). Geneva: WHO, 2022.

Esse artigo foi escrito por:

Foto de Cristiano Freire

Cristiano Freire

Médico especialista em Neuropediatria, dedicado ao diagnóstico, acompanhamento e orientação de crianças e adolescentes com necessidades específicas.

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