Devemos ficar atentos para atrasos na comunicação, pois eles podem ser o primeiro sinal de problemas mais graves e que quanto antes forem diagnosticados e tratados melhor será o prognóstico.
A linguagem como parte do desenvolvimento global
O desenvolvimento da linguagem não ocorre isoladamente: ele está intimamente ligado à maturação motora, à cognição, às experiências sociais e à qualidade das interações familiares.
Pesquisas mostram que movimentos corporais, gestos, brincadeiras e trocas afetivas são pilares para que a criança aprenda a se comunicar — muito antes de falar a primeira palavra.
Entre o nascimento e os seis anos, a criança percorre um caminho extraordinário: do balbucio inicial ao uso de frases complexas, desenvolvendo vocabulário, compreensão e criatividade linguística. A seguir, veja o que esperar em cada fase e quais sinais exigem atenção.
0 a 12 meses
O que esperar
- Demonstra interesse por pessoas e objetos.
- Faz contato visual e reage a vozes familiares.
- Emite sons e balbucios, além do choro.
- Agarra objetos e acompanha sons com o olhar.
O que acontece por dentro:
Nessa fase, o bebê já reconhece o ritmo e os sons da fala humana — inclusive da voz materna. Estudos mostram que a percepção da fala começa ainda na gestação, e o bebê diferencia sons da língua a que é exposto.
Fique atento se: o bebê não olha quando é chamado, não reage a sons ou não demonstra interesse por rostos.
12 a 18 meses
O que esperar
- Responde a ordens simples (“dá tchau”, “bate palmas”).
- Fala as primeiras palavras com significado (“mamã”, “papá”).
- Entende o “não” e reconhece o próprio nome.
Achado científico:
Essa fase marca o início da relação entre motricidade e linguagem: ao manipular objetos e gesticular, o bebê pratica padrões rítmicos que preparam o cérebro para o balbucio articulado.
Fique atento se: não fala nenhuma palavra com sentido ou parece não compreender ordens simples.
18 a 24 meses
O que esperar
- Combina duas palavras (“dá bola!”, “é meu!”).
- Identifica partes do corpo.
- Fala pelo menos 50 palavras
- Usa gestos e compreende perguntas simples.
O que dizem os estudos:
Segundo Iverson (2010), o domínio da coordenação motora fina e do brincar funcional (usar uma colher, empilhar blocos) amplia a compreensão de causa e efeito base para a formação de frases e o aprendizado de significados.
Fique atento se: não combina palavras ou não aponta o que quer.
2 a 3 anos
O que esperar
- Fala cerca de 200 a 300 palavras.
- Usa verbos e frases curtas.
- Entende noções de tamanho e quantidade.
- Brinca de faz-de-conta e ajuda nas tarefas.
Dica baseada em evidência:
A “explosão de vocabulário” ocorre por volta dos dois anos e está associada à interação verbal de qualidade com os adultos — mais do que à quantidade de palavras ouvida.
Fique atento se: fala pouco, não entende comandos ou não usa gestos.
3 a 4 anos
O que esperar
- Usa frases de 3 a 4 palavras.
- Responde bem a perguntas e obedece ordens com mais de uma ação.
- Reconhece cores e formas, canta e conversa com prazer.
Evidência:
Crianças que participam de brincadeiras simbólicas e conversas cotidianas desenvolvem vocabulário mais amplo e compreensão mais rápida.
Fique atento se: a fala é pouco compreensível ou o vocabulário é restrito.
4 a 5 anos
O que esperar
- Fala quase todos os sons da língua.
- Conta pequenas histórias e usa imaginação nas brincadeiras.
- Relata o que fez na escola ou em casa.
Dado relevante:
Entre 4 e 6 anos, o ambiente familiar ainda é o fator mais determinante no desenvolvimento da linguagem, mais do que o escolar. A qualidade do diálogo entre pais e filhos é decisiva.
Fique atento se: evita conversar ou não se faz entender.
5 a 6 anos
O que esperar
- Tem noção de tempo (“ontem”, “hoje”, “amanhã”).
- Reconhece letras e números.
- Conta histórias completas e demonstra interesse por leitura.
Evidência atual:
Estudo britânico (Law et al., 2023) confirmou que avaliar a linguagem aos 24–30 meses com instrumentos simples (checklist de vocabulário e observação da interação) permite prever e prevenir atrasos futuros, com sensibilidade de 98%.
Fique atento se: troca muitos sons, fala frases incompletas ou demonstra desinteresse por comunicação.
Parâmetros de Fala e Compreensão com número de palavras esperadas
| Idade | Compreensão (entende) | Expressão (fala) | Vocabulário médio esperado |
| 0–3 meses | Reage à voz e olha para rostos | Choro e sons reflexos | — |
6 meses | Reconhece o nome e reage a sons familiares | Balbucia (“ba-ba”, “ma-ma”) | — |
9 meses | Entende o “não” e rotinas simples | Balbucios variados com intenção comunicativa | ~5–10 sons/onomatopeias |
| 12 meses | Segue ordens simples com gestos | Diz 1–3 palavras com sentido (“mamã”, “papá”) | 1–10 palavras |
15 meses | Entende mais de 50 palavras e pequenas frases | Usa palavras isoladas para pedir ou nomear | 10–20 palavras |
18 meses | Entende frases simples e comandos sem gestos | Usa 20–50 palavras; início da combinação de 2 palavras | 20–50 palavras |
24 meses | Compreende perguntas simples | Usa 50–200 palavras; combina duas palavras (“quer água”) | 200 ± 100palavras |
3 anos | Entende ordens com 2–3 ações | Fala frases de 3–4 palavras; narra pequenas experiências | 200–1.000 palavras |
4 anos | Entende diferenças e semelhanças | Usa gramática mais correta; conta fatos simples | 1.000–1.600 palavras |
5 anos | Entende histórias e noções de tempo | Usa tempos verbais e conectivos (“depois fui brincar”) | 2.000–2.500 palavras |
6 anos | Compreende linguagem abstrata | Fala com clareza, usa frases completas e ricas | 2.500–3.000 palavras |
| Tipo de processo | Exemplo comum (revisado) | Idade esperada para desaparecer |
Omissão de sílabas (redução de sílaba átona) | banana → nanaelefante → lefante | até 3 anos |
Omissão de consoante final | pato → pásol → sô | até 3 anos e meio |
| Substituição de sons (mais gerais: plosivas ↔ fricativas / líquidas) | sapato → tapato (fricativa /s/ → plosiva /t/)vaca → baca (/v/ → /b/)gelado → delado (/ʒ/ → /d/) | até 4 anos |
Simplificação de encontros consonantais | prato → patotrava → tavablusa → busa | até 5 anos |
Substituição ou omissão de /r/ (vibrante simples ou múltipla) | rato → lato, atocarta → cata | até 5–6 anos |
Trocas entre fricativas (/f/, /s/, /ʃ/ “ch”) | sapo → fapochave → save | até 6 anos |
| Trocas persistentes, numerosas ou atípicas | vários sons trocados, fala difícil de entender, instável | Avaliação fonoaudiológica |
Dica para os pais:
A fala infantil deve se tornar claramente compreensível para familiares por volta dos 3 anos e para desconhecidos até os 4 anos.
Se após essa idade ainda há trocas constantes, omissões ou fala difícil de entender, procure um fonoaudiólogo.
Esses dados seguem as referências de Sutton & Trudeau (2007), Shriberg (1993), ASHA (2020) e CoDAS (2016), que descrevem o desenvolvimento típico dos sons em crianças bilíngues e monolíngues de língua portuguesa.
Sinais de Alerta Importantes
Procure avaliação com seu pediatra, com fonoaudiólogo ou neuropediatra se:
- Não balbucia até 9 meses.
- Não fala palavras com sentido até 18 meses.
- Não combina palavras até 2 anos e meio.
- A fala é ininteligível após 3 anos.
- Parece não entender comandos simples.
- Evita contato social ou regrediu na fala.
- Mantém trocas ou omissões de sons além da idade esperada.
Conclusão
Devemos manter atenção constante aos atrasos na comunicação, pois muitas vezes eles representam o primeiro sinal de condições clínicas, fonoaudiológicas ou psicológicas que só se tornam plenamente identificáveis mais tarde. Quanto mais cedo forem diagnosticados e tratados, melhor será o prognóstico no desenvolvimento global da criança.
O desenvolvimento da linguagem é um processo integrado que depende da maturação do corpo, da organização cognitiva e da qualidade das relações sociais. A comunicação verbal não surge isoladamente: ela é construída a partir das experiências motoras, sensoriais, afetivas e interativas do dia a dia da criança. Por isso, práticas simples — como brincar, conversar com frequência, cantar, ler histórias em voz alta e permitir que a criança explore o ambiente — são fundamentais para estruturar a base neural da linguagem.
Atrasos na fala podem estar associados a diversas condições que se manifestam inicialmente de forma sutil. Entre os diagnósticos médicos, destacam-se: distúrbios do neurodesenvolvimento como transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), deficiência intelectual, paralisia cerebral, sequelas de prematuridade, hipoacusia neurossensorial ou condutiva, além de síndromes genéticas.
Do ponto de vista fonoaudiológico, o atraso pode refletir quadros como transtorno fonológico, apraxia de fala na infância, distúrbios específicos de linguagem (TEL/D.E.L.), alterações auditivas, dificuldades em processamento fonológico, além de impactos do desenvolvimento oromotor.
No campo psicológico, a linguagem pode ser afetada por transtornos de ansiedade, retraimento importante, dificuldades de interação social, história de ambiente comunicativo empobrecido, ou efeitos de experiências estressoras precoces, que influenciam diretamente a autorregulação e o engajamento comunicativo.
Por tudo isso, pais e cuidadores são os principais agentes de promoção de linguagem. O olhar atento, o convívio diário, o diálogo constante e o estímulo afetivo formam a rede mais potente para apoiar o desenvolvimento típico e identificar precocemente sinais de atraso. Reconhecer esses sinais cedo, buscar avaliação especializada e intervir no momento adequado é a chave para melhorar significativamente a trajetória comunicativa, escolar e socioemocional da criança.
Referências
- Iverson JM. Developing language in a developing body: The relationship between motor development and language development. Journal of Child Language, 2010; 37(2):229–261. doi:10.1017/S0305000909990432.
- Sutton A, Trudeau N. Nos bouts de choux : linguistes en herbe. Médecine/Sciences, 2007; 23(11):934–938. doi:10.1051/medsci/20072311934.
- Carvalho AJA, Lemos SMA, Goulart LMHF. Desenvolvimento da linguagem e sua relação com comportamento social, ambientes familiar e escolar: revisão sistemática. CoDAS, 2016; 28(4):470–479. doi:10.1590/2317-1782/20162015193.
- Law J, Charlton J, Wilson P, Rush R, Gilroy V, McKean C. Identifying low language abilities in children aged 24–36 months. BMC Pediatrics, 2023; 23:495. doi:10.1186/s12887-023-04079-x.
- Prates LPCS, Melo EMC, Vasconcelos MMA. Desenvolvimento de linguagem em crianças até os seis anos – cartilha informativa. UFMG, Belo Horizonte, 2011.
- Shriberg LD. Four new speech and prosody-voice measures for genetics research and other studies in developmental phonological disorders. Journal of Speech and Hearing Research, 1993; 36(1):105–140.
- Research, 1993; 36(1):105–140. American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). Speech Sound Development Chart. 2020.