Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Crise Febril ou Convulsão Febril


Definição

Convulsão associada à febre (pode ser febre baixa ou até mesmo antes de se identificar a febre), em crianças entre 6 meses e 6 anos, sem infecção do SNC, distúrbio metabólico ou história de crises não febris.

Epidemiologia

Incidência: 2–5% das crianças em países ocidentais; até 10% em populações asiáticas. Pico de ocorrência: entre 18 e 24 meses. Predomínio leve em meninos. História familiar presente em até 30–40% dos casos

Fisiopatologia

Imaturidade do SNC: maior excitabilidade neuronal nos primeiros anos de vida.
Fatores genéticos:

  • Mutação em genes de canais iônicos (ex.: SCN1A, SCN2A, GABRG2).
  • Síndromes epilépticas relacionadas (ex.: GEFS+, Dravet).

Febre como gatilho: citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, TNF-α) → alteração da excitabilidade neuronal.
Fatores ambientais: infecções virais (influenza, adenovírus, HHV-6, HHV-7).

Classificação

Crise Febril Simples

  • Duração < 15 minutos
  • Generalizada (tônica-clônica)
  • Ocorre apenas 1 vez nas primeiras 24h
  • Sem sequelas neurológicas

Crise Febril Complexa

  • Duração > 15 minutos
  • Focal (movimentos em apenas um hemicorpo)
  • Recorrente no mesmo episódio febril
  • Pode ter recuperação lenta do sensório

Crise febril do tipo hipotônica-hiporresponsiva (também conhecida como “crise atônica”)

  • Caracteriza-se por hipotonia súbita, palidez ou cianose, hiporresponsividade e diminuição ou perda da consciência.
  • Dura tipicamente menos de 1 minuto.
  • Pouco ou nenhum componente motor clônico, ou tônico evidente.
  • Muitas vezes confundida com episódio de síncope ou reação vagal pós-vacinal.

Diagnóstico

  • Principalmente clínico, com base na história e exame físico
  • EEG e neuroimagem não são indicados rotineiramente em crises febris simples (American Academy of Pediatrics, 2011)
  • Punção lombar: considerar em lactentes <12 meses com sinais clínicos de infecção do SNC, ou quando o estado mental não se recupera adequadamente após a crise

Manejo da Crise – Durante a crise (em casa ou na escola)

  • Posicionar a criança lateralmente para evitar aspiração de saliva
  • Afastar objetos perigosos ao redor
  • Não colocar objetos na boca da criança
  • Observar o tempo da crise (usar cronômetro ou estimar)
  • Se a crise durar > 5 minutos buscar atendimento médico
  • Não tentar conter os movimentos convulsivos
  • Após a crise: manter a criança em repouso e monitorar a recuperação
  • Uso de diazepam (via retal) ou midazolam (oromucoso) somente com orientação médica

Riscos de Recorrência

  • Primeira crise: 30–40% chance de recorrência
  • Segunda crise: 50–60% chance de uma terceira

Fatores que aumentam a recorrência:

  • Primeira crise < 18 meses
  • História familiar de crise febril
  • Crise com febre baixa (<38,5°C)
  • Intervalo curto entre início da febre e a crise
  • Frequentar creches (maior exposição a vírus)

Fatores protetores:

  • Primeira crise após 2 anos
  • Febre alta na primeira crise
  • Intervalo longo entre febre e crise

Profilaxia

Recomendações Oficiais
As sociedades de neuropediatria e de pediatria (AAP, ILAE, SBP) não recomendam profilaxia contínua ou intermitente rotineira com anticonvulsivantes em crianças com crises febris simples, devido à boa evolução clínica e aos riscos potenciais de efeitos colaterais dos fármacos.


A profilaxia intermitente com benzodiazepínicos (diazepam oral ou retal) pode ser considerada em consenso com os pais, especialmente se:

  • Crises febris complexas anteriores
  • Crises muito prolongadas (>10 minutos)
  • Ansiedade parental incapacitante
  • Dificuldade de acesso a serviço médico de urgência
  • Presença de comorbidades neurológicas leves
  • Os estudos destacam que diazepam intermitente pode reduzir recorrência, mas sem impacto sobre risco de epilepsia futura. O uso deve ser ponderado caso a caso por risco/benefício.

Prognóstico

Geralmente benigno: não há evidência de prejuízo no desenvolvimento neuropsicomotor a longo prazo após crises febris simples

Risco de epilepsia futuro:

  • 1–2% : após crise febril simples
  • 6–7% : se crise febril complexa ou com alterações neurológicas
  • 15 – 20% : com história familiar de epilepsia ou atraso do DNPM:

Conclusão Prática

  • Crise febril simples não exige investigação extensa nem tratamento anticonvulsivante contínuo
  • O uso domiciliar de diazepam pode ser indicado de forma pontual, com orientação médica e familiar
  • A educação dos pais e cuidadores é fundamental para o manejo seguro e para evitar condutas inadequadas durante as crises
  • Compreender que crise febril não é uma doença!

Referências

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Subcommittee on Febrile Seizures. Febrile seizures: clinical practice guideline for the long-term management of the child with simple febrile seizures. Pediatrics, Itasca, v. 127, n. 2, p. 389–394, 2011. DOI: 10.1542/peds.2010-3318.

OFFRINGA, M.; NEWTON, R. Prophylactic drug management for febrile seizures in children. Cochrane Database of Systematic Reviews, London, n. 2, CD003031, 2017. DOI: 10.1002/14651858.CD003031.pub3.

SHINNAR, S.; GLAUSER, T. A. Febrile seizures. Journal of Child Neurology, Thousand Oaks, v. 17, suppl. 1, p. S44–S52, 2002. DOI: 10.1177/08830738020170010701.

BERG, A. T.; SHINNAR, S. Complex febrile seizures. Epilepsia, Hoboken, v. 37, n. 2, p. 126–133, 1996.

LEUNG, A. K. C.; HON, K. L.; LEUNG, T. N. H. Febrile seizures: an overview. Drugs in Context, Auckland, v. 7, p. 1–12, 2018. DOI: 10.7573/dic.212536.

SMITH, D. K.; SADLER, K. P.; BENEDUM, M. Febrile seizures: risks, evaluation, and prognosis. American Family Physician, Kansas City, v. 99, n. 7, p. 445–450, 2019.

CAMFIELD, P. R.; CAMFIELD, C. S. Febrile seizures and genetic epilepsy with febrile seizures plus (GEFS+). Epileptic Disorders, Montrouge, v. 17, n. 2, p. 124–133, 2015.

Esse artigo foi escrito por:

Foto de Cristiano Freire

Cristiano Freire

Médico especialista em Neuropediatria, dedicado ao diagnóstico, acompanhamento e orientação de crianças e adolescentes com necessidades específicas.

VEJA TAMBÉM: