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TEA – Estratégias de manejo comportamental

RETRAIMENTO E ISOLAMENTO SOCIAL

Algumas crianças dentro do espectro autista preferem brincar sozinhas, mesmo quando estão cercadas por outras. Essa preferência geralmente não significa falta de interesse social, mas sim dificuldade em compreender regras sociais implícitas e lidar com a imprevisibilidade da interação.


Exemplo 1:
em uma atividade de pintura coletiva, Pedro se isola em um canto e pinta apenas dinossauros. A professora se aproxima e usa o mesmo tema — oferece um “dinossauro companheiro” — e propõe que outro colega pinte com ele. Pedro aceita, mantendo o foco no tema que domina.
Exemplo 2: durante o recreio, Ana gira sozinha o mesmo brinquedo todos os dias. A mediadora convida um colega para mostrar novas formas de brincar com o mesmo objeto, e gradualmente ela passa a permitir a presença dos outros.
Estratégia: favorecer a aproximação natural, usando o interesse da criança como ponto de partida. O engajamento entre pares, apoiado por modelagem e reforço positivo, é uma prática baseada em evidências que melhora a reciprocidade social.

AVERSÃO OU DESCONFORTO AO CONTATO FÍSICO

O toque pode causar desconforto em algumas crianças com TEA, devido à hipersensibilidade tátil ou dificuldade de prever o que acontecerá quando alguém se aproxima.

Exemplo 1: Lucas recua sempre que os colegas tentam abraçá-lo. A professora explica ao grupo que existem diferentes formas de demonstrar carinho e combina o uso do “tchau com a mão” ou do “toque de punho”.
Exemplo 2: Júlia chora quando alguém toca seu ombro por trás. A professora passa a chamá-la sempre pelo nome antes de se aproximar e ensina os colegas a avisar verbalmente antes do contato.
Estratégia: permitir que a criança escolha como quer se aproximar e preparar os colegas para respeitar essas preferências. O respeito ao perfil sensorial e o ensino de alternativas comunicativas reduzem o estresse e favorecem a inclusão.

BUSCA EXCESSIVA PELO CONTATO FÍSICO

Algumas crianças buscam abraços, encostar-se ou se apoiar em colegas ou adultos de forma repetitiva, o que pode gerar incômodo social.


Exemplo 1:
Miguel abraça todos os colegas várias vezes ao dia. A professora estabelece um combinado visual: um cartão com o símbolo do “abraço permitido” e outro com o “bate aqui”, para ajudá-lo a diferenciar os momentos.

Exemplo 2: Sofia se encosta constantemente na professora enquanto faz as tarefas. É ensinado a ela a pedir atenção verbalmente (“olha pra mim, por favor”) e a professora reforça com elogio cada vez que ela usa a frase em vez do toque.


Estratégia: ensinar formas socialmente adequadas de buscar atenção ou afeto, utilizando o Treinamento de Comunicação Funcional (Functional Communication Training – Treinamento de Comunicação Funcional) e reforço positivo diferencial.

POUCO CONTATO VISUAL

Evitar o olhar não significa desinteresse. Muitas crianças com TEA sentem desconforto
ao sustentar o olhar direto, mas ainda assim percebem expressões e gestos periféricos.

Exemplo 1: ao mostrar um brinquedo, a terapeuta posiciona o objeto próximo ao rosto, permitindo que Bernardo olhe para o brinquedo e, indiretamente, para ela.
Exemplo 2: durante uma conversa, a professora se abaixa à altura de Lara, chama pelo nome e espera dois segundos antes de falar — esse tempo permite que ela processe o comando e estabeleça contato visual breve.
Estratégia: buscar o olhar funcional, e não o contato visual forçado. As intervenções naturalísticas e comportamentais (Naturalistic Developmental Behavioral Interventions – Intervenções Naturalísticas Desenvolvimentais e Comportamentais) priorizam o olhar espontâneo como sinal de atenção conjunta, e não como imposição social.

RIGIDEZ DE COMPORTAMENTO E RESISTÊNCIA A MUDANÇAS

A resistência a mudanças é comum e gera ansiedade. O ambiente previsível oferece segurança e ajuda a prevenir colapsos.

Exemplo 1: quando o horário do recreio muda por causa da chuva, a professora mostra um cartão com a imagem da “sala de vídeo” e explica que ali também haverá lanche. O aviso visual diminui o estresse de João.
Exemplo 2: antes de trocar a rotina semanal, a escola envia para os pais a nova sequência ilustrada para que a criança veja em casa. No dia seguinte, ela já chega preparada.
Estratégia: antecipar mudanças com recursos visuais (agenda, “First–Then”), dar opções limitadas de escolha e reforçar a flexibilidade. As rotinas visuais são uma das estratégias mais eficazes segundo o National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice.

FOCOS RESTRITOS DE INTERESSE

O interesse intenso por um tema específico pode ser utilizado a favor da aprendizagem.

Exemplo 1: Gabriel só fala sobre planetas. A professora cria uma atividade de leitura usando cartões de sílabas com nomes de planetas, estimulando a leitura funcional.
Exemplo 2: Mariana se interessa apenas por carros. O terapeuta usa carrinhos para trabalhar cores, tamanhos e contagem, ampliando gradualmente o vocabulário.
Estratégia: aproveitar o foco de interesse como motivador natural e ponto de partida para novas aprendizagens. As intervenções naturalísticas recomendam associar o tema preferido a novas demandas para ampliar repertórios cognitivos e sociais.

EXPLOSÕES COMPORTAMENTAIS

As crises costumam surgir quando a criança não consegue se comunicar ou lidar com frustração.

Exemplo 1: Tiago grita e chora quando o brinquedo preferido é guardado. O adulto espera que ele se acalme, mostra o cartão “pausa” e ensina-o a pedir ajuda antes de chorar.
Exemplo 2: Laura se joga no chão quando a rotina muda. A mediadora reduz estímulos, fala pouco, e após o episódio conversa com ela usando figuras para identificar o que gerou a crise.
Estratégia: identificar o gatilho (análise funcional) e ensinar uma forma alternativa de expressar necessidade ou frustração. As estratégias baseadas em análise funcional e comunicação funcional são recomendadas por todos os protocolos clínicos modernos.

MOVIMENTOS REPETITIVOS E ESTEREOTIPADOS

Movimentos repetitivos, como balançar as mãos ou bater palmas, podem surgir como forma de autorregulação sensorial.

Exemplo 1: Carlos balança as mãos quando está ansioso. A professora propõe bater palmas em ritmo com uma música, redirecionando o movimento para uma atividade funcional.
Exemplo 2: Isabela pula repetidamente antes da aula. O adulto cria uma “pausa de movimento” com três pulos combinados e reforça o autocontrole ao final.
Estratégia: reduzir estímulos, respeitar o tempo de reorganização e oferecer alternativas sensoriais seguras. Atividade física estruturada, integração sensorial e pausas planejadas são abordagens sustentadas pela literatura médica.

AGITAÇÃO MOTORA

A hiperatividade pode refletir necessidade de movimento, não apenas desobediência.

Exemplo 1: Enzo corre pela sala em todas as transições. A professora inclui um“momento de movimento” entre as atividades, como pular na cama elástica ou chutar uma bola ao alvo.
Exemplo 2: Luiza não para sentada durante a leitura. O educador permite que ela use uma cadeira de balanço e ofereça um objeto tátil enquanto ouve.
Estratégia: incluir atividades motoras previsíveis e estruturadas ao longo do dia. A literatura mostra que o movimento regular melhora atenção, humor e participação social.

MANUSEIO INAPROPRIADO DE OBJETOS

Rodar rodas, enfileirar ou agrupar objetos é uma forma de explorar o ambiente e acalmar-se.

Exemplo 1: Henrique gira as rodinhas dos carrinhos por longos períodos. O adulto senta ao lado, mostra como empurrar o carrinho e reforça o novo uso sem proibir o anterior.
Exemplo 2: Clara alinha lápis na mesa. A professora propõe organizar os lápis por cor em um jogo de pares e elogia sua atenção aos detalhes.
Estratégia: transformar o comportamento em aprendizado, ensinando a função de cada objeto com modelagem, vídeo ou imitação de colegas. Isso amplia o brincar e reduz frustrações.

HIPERSENSIBILIDADE A BARULHOS

Ruídos intensos podem causar dor física ou medo.

Exemplo 1: Rafael tampa os ouvidos quando o sino toca. A escola combina com ele o uso de abafadores e mostra um cartão “sino” para antecipar o momento.
Exemplo 2: Helena se isola durante as aulas de música. A professora ajusta o volume e permite que ela toque o instrumento por alguns segundos antes da turma.
Estratégia: ajustar o ambiente, prever o som e ensinar estratégias de enfrentamento. A adaptação sensorial é uma das funções centrais da terapia ocupacional moderna.

DIFICULDADE DE COMPREENSÃO VERBAL

Algumas crianças entendem apenas palavras-chave e precisam de tempo maior de
processamento.

Exemplo 1: João não segue instruções longas. O professor divide a tarefa: “pega o lápis”, espera, depois “agora desenha o sol”.
Exemplo 2: Beatriz não responde a comandos coletivos. A mediadora se aproxima, mostra a imagem correspondente e dá o comando individual.

Estratégia: usar frases curtas, um comando de cada vez e apoio visual. O uso de tempo de espera e pistas visuais é validado por diversas práticas baseadas em evidências.

ATRASO DE FALA

O vocabulário restrito e a dificuldade de expressar desejos geram frustração.

Exemplo 1: Felipe aponta para o copo, mas não fala. A terapeuta nomeia “água” e reforça cada tentativa vocal.
Exemplo 2: Ana usa gestos para pedir brinquedos. A escola introduz cartões de figuras (sistema PECS) e ela aprende a solicitar de forma independente.
Estratégia: nomear objetos, reforçar tentativas de comunicação e, quando necessário, implantar Comunicação Aumentativa e Alternativa (Augmentative and Alternative Communication – Comunicação Suplementar e Alternativa). Essa abordagem é segura e comprovadamente eficaz.

ECOLALIAS

Repetir palavras ou frases é uma forma de processar a linguagem e buscar interação.

Exemplo 1: Davi repete “quer suco” toda vez que vê uma garrafa, mesmo que não queira. A professora responde “Davi, você quer beber?” e mostra a imagem do copo, ajudando-o a associar a fala à ação correta.
Exemplo 2: Maria repete falas de desenhos. O educador aproveita o tema e propõe dramatizações curtas, dando sentido comunicativo à ecolalia.
Estratégia: usar frases curtas, gestos e imagens, e transformar a repetição em comunicação funcional. O uso de scripts e apoios visuais melhora compreensão e expressão verbal.

DIFICULDADE PARA SIMBOLIZAR E COMPREENDER CONTEÚDOS SUBJETIVOS

A imaginação e o faz-de-conta exigem habilidades sociais e cognitivas complexas, que podem se desenvolver mais lentamente no TEA.

Exemplo 1: André não se interessa por brincar de casinha. A professora cria uma mini cozinha de brinquedo e o convida para fazer “comida” para o colega. Ele aceita por imitação.
Exemplo 2: Paula prefere apenas montar blocos. O terapeuta constrói uma história curta com os blocos (“a ponte caiu”) e propõe que ela salve os bonecos, introduzindo simbolismo.
Estratégia: estruturar o brincar com roteiros visuais simples, histórias curtas e papéis definidos, reforçando cada avanço. A literatura mostra que o uso de modelagem por vídeo e mediação por pares favorece o desenvolvimento simbólico e social.

Síntese final:

As estratégias mais eficazes no manejo comportamental do TEA se apoiam em três pilares:

  • 1. Previsibilidade e estrutura ambiental.
  • 2. Ensino de comunicação funcional e uso de apoios visuais.
  • 3. Participação ativa da família e dos colegas na mediação.

Essas ações, quando consistentes, constroem um ambiente em que a criança autista aprende, se regula e se conecta sem perder sua singularidade.

Referências

  • 1. Wong, C. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism Spectrum Disorder: A Comprehensive Review of the National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP). Chapel Hill: University of North Carolina, 2021.
  • 2. Zwaigenbaum, L. et al. Evidence-Based Interventions in Autism Spectrum Disorder. Pediatric Clinics of North America, 2024.
  • 3. Reaven, J. et al. Therapy for Anxiety in Children with Autism Spectrum Disorders. Cognitive and Behavioral Practice, 2013.
  • 4. Lai, M. C.; Kerns, C. M. Autism and Mood Disorders. Current Opinion in Psychiatry, 2021.
  • 5. Healy, S. et al. Effects of Physical Activities on Individuals with Autism Spectrum Disorder: A Systematic Review. International Journal of Environmental Research and Public Health, 2020.
  • 6. Schaaf, R. C. et al. The Role of Occupational Therapy in Autism Spectrum Disorder. American Journal of Occupational Therapy, 2023.
  • 7. Camargos Jr., W. (Org.) Intervenção precoce no autismo: guia multidisciplinar de 0 a 4 anos. Belo Horizonte: Ed. Artesã, 2017. Capítulo “A Inclusão na Pré- Escola” – Aline Abreu Andrade, Cláudia Teresinha Facchin, Manuela Correia, Vivianne Lima Campos Moura.

Esse artigo foi escrito por:

Foto de Cristiano Freire

Cristiano Freire

Médico especialista em Neuropediatria, dedicado ao diagnóstico, acompanhamento e orientação de crianças e adolescentes com necessidades específicas.

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